No princípio era o ritmo

Depois dos crossovers, as contaminações culturais estão na moda; multimédia, se possível.

Imagens, sons e movimento correspondem-se. Pela mão de Polo Vallejo, etnomusicólogo e compositor, a 12ª edição do Festival Terras Sem Sombra apresentou, na magnífica Basílica de Nossa Senhora da Conceição em Castro Verde, uma seleção dos diabólicos “Etudes pour piano” (dos Livros 1 e 2, 1985-94), de György Ligeti (1923-2006), em diálogo com música tradicional africana (Camarões e Guiné-Conacri), mediado por peças para piano solo do próprio Vallejo. Mais do que um concerto, experimentámos uma útil ação pedagógica, com Vallejo a explicar as relações rítmicas entre as várias obras enquanto passava um slide show de belíssimas fotografias africanas por Carmen Ballvé, gravuras de M. C. Escher e extratos das partituras. Poderia ter entrado pela miniaturização fractal da música de Ligeti, mas resolveu — e bem — não ir por aí, para melhor digestão do programa.

As associações justificavamse. Ligeti era o compositor das ilusões auditivas (tal como Escher o fora das visuais). Em 1982, ao tomar conhecimento da complexa música polirrítmica das tribos Banda-Linda e pigmeus Aka da República Centro-Africana, No princípio era o ritmo divisão em 7 e 5 (para mais, números primos) é muito mais interessante, tanto mais que a simetria quinária está relacionada com a secção áurea e o padrão de beleza. Claro que Debussy já usava todos os intervalos e experimentava com escalas pentatónicas no final do século XIX. Aliás, o Nº 11 de Ligeti, ‘En Suspens’ soa deliciosamente a Debussy.

 

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O concerto estava organizado à volta de três blocos centrados em ideias fortes — pulsação, linguagem e polirritmia polifónica —, óbvias na música africana, mas encobertas na música muito mais elaborada de Ligeti. As composições de Vallejo (3 estudos polirrítmicos para piano solo dos “Cuadernos del tiempo”, 2004) fizeram uma boa ligação entre os dois universos, com destaque para ‘Diaboulus’. O que se perdeu no chamado Ocidente — há exceções, como em Messiaen — foi a ligação aos (ante)passados e ao divino.

O grande ausente foi J. S. Bach, que nos ensinou a contar.

Uma penúltima nota sobre a degradação da Basílica e as visíveis e desastradas intervenções do pároco atual.

No domingo andámos por montes e vales, vimos colmeias e antigos fornos de cal e ouvimos os rouxinóis. Ponto de partida: ermida de São Pedro das Cabeças. Ponto de chegada: Monte das Cabeças, onde lucrámos com a sabedoria do moiral (pastor), Sr. Elisiário (com a ajuda da cadela “Zurra”, que conhece toda a gente). As cabeças seriam as dos cinco ‘reis’ mouros que Dom Afonso Henriques degolou na Batalha de Ourique.

Autor: Jorge Calado / Temas: Festival Terras Sem Sombra